Friday, November 16, 2012

Ilse Losa: uma escritora luso-alemã que viveu no Porto






O Mundo em que Vivi
 Ilse Losa |
Edições Afrontamento
"Numa escrita inexcedivelmente sóbria e transparente, e através de breves episódios, este romance conduz-nos em crescendo de emoção desde a primeira infância rural de uma judia na Alemanha, pelos finais da Primeira Guerra mundial, até ao avolumar de crises que por fim a obrigam ao exílio mesmo na iminência de um destino trágico num campo de concentração..."

Prof. Dr. Óscar Lopes, 
in Edições Afrontamento




Ilse Losa 1913-2006
"Há livros escritos para crianças que suplantam em valor literário uma longa fiada de volumosos romances para adultos, do mesmo modo que um pequeno desenho a carvão suplanta, tantas vezes, grandes composições policromáticas a óleo".

Ilse Losa





O Mundo em que Vivi
Ilse Losa
Maranus/ Porto 1949


Ilse Lieblich Losa nasceu na Alemanha em 1913. Por ser judia, foi obrigada a fugir da Alemanha, durante a perseguição Nazi, e acompanhando seus pais, refugiou-se em Portugal, e adquiriu a nacionalidade portuguesa. 

Aos 21 anos, radicou-se em Portugal, na cidade do Porto, onde o irmão mais velho, Fritz Lieblich, já residia. Aqui casou em 1935 com o arquitecto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa.

Ilse Lieblich Losa, escritora portuguesa de origem alemã e de ascendência judaica, nasceu a 20 de Março de 1913, em Bauer, uma cidade perto de Hanover.






Escritora de grande prestígio e de vasta bibliografia, publicou romances, contos, crónicas, trabalhos pedagógicos e muita literatura para crianças. Mas é conhecida principalmente pelos seus livros para crianças.

Recebeu o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da sua obra para crianças. Foi candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen.Tem vários livros publicados na Alemanha.

Em 1982 o seu livro " A Quinta das Cerejas" obteve o "Prémio Gulbenkian de Texto". E em 1984, Ilse Losa obteve o "Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças", pelo conjunto da sua obra para crianças.








O Expositor 
Ilse Losa (1982)
Ilustração António Modesto
Edições Afrontamento


"Há livros escritos para crianças que suplantam em valor literário uma longa fiada de volumosos romances para adultos, do mesmo modo que um pequeno desenho a carvão suplanta, tantas vezes, grandes composições policromáticas a óleo".



Ilse Losa



Foi candidata portuguesa ao "Prémio Hans Christian Andersen". Tem vários livros publicados na Alemanha. Também com livros publicados em França.






Ilse Losa 1913-2006

A autora de O Mundo em que Vivi morreu aos 92 anos no dia 6 de Janeiro 2006.

Com o Porto, cidade que a acolheu num período difícil da sua vida, Ilse Losa manteve sempre uma relação de proximidade.



Para o historiador Helder Pacheco, que chegou a ser vizinho da escritora, o segredo residiu em "perceber e adaptar-se à cidade."


Segundo Óscar Lopes "os seus livros são uma só odisseia interior de uma demanda infindável da pátria, do lar, dos céus a que uma experiência vivida só responde com uma multiplicidade de mundos que tanto atraem como repelem e que todos entre si se repelem".



Silka
Ilse Losa
ilustração: Manuela Bacelar
Livros Horizonte, 1984


Em 1989 ganhou o Prémio Maçã de Ouro da Bienal Internacional de Bratislava, pelo conto Silka.

O livro relata uma lenda nórdica que um dia contaram a Ilse Losa e que ela recria à sua maneira: bela e triste. Uma menina, Silka, enamora-se de Reinaldo e com ele vai viver para o fundo do mar.

Em Junho de 1995 foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique.


Sobre O Mundo em que Vivi, uma obra ce carácter autobiográfico, escreveu Óscar Lopes:

"Numa escrita inexcedivelmente sóbria e transparente, e através de breves episódios, este romance conduz-nos em crescendo de emoção desde a primeira infância rural de uma judia na Alemanha, pelos finais da Primeira Guerra Mundial, até ao avolumar de crises (inflação, desemprego, assassínio de Rathenau,aumento de influência e vitória dos Nazistas) que por fim a obrigam ao exílio mesmo na iminência de um destino trágico num campo de concentração." (...)

Professor Dr. Óscar Lopes


 

 O Quadro Roubado
Ilse Losa
ilustração: João Nunes, 1985
Edições ASA

Actividades:

A autora viveu uma grande parte da sua vida na Foz do Douro, bem perto da escola. Havia alunos nas turmas que moravam perto de Ilse Losa.

Nas aulas de Língua Portuguesa, os alunos desenvolveram as seguintes actividades:
  • Em grupo restrito fizeram uma pequena reportagem, recolhendo testemunhos de vizinhos;
  • Pesquisa sobre a autora e sua obra infanto-juvenil;
  • Elaboração de um Jornal de Parede: notícias saídas nos jornais sobre a autora, após a sua morte;
  • Leitura em grupos de obras O Mundo em que Vivi; O Quadro Roubadoseguida de análise de conteúdo (perseguição Nazi aos judeus, crianças enviadas e mortas em campos de concentração), seguida do estudo do Texto Narrativo;
  • Elaboração de textos de escrita criativa: poesia, contos, relatos de guerra de jovens;
  • Publicação no sítio web da escola de uma pequena homenagem à autora (posteriormente retirada);
  • Elaboração de um curta homenagem a Ilse Losa no BlogdosCaloiros como introdução às actividades
  • Apresentação de Ilse Losa: écrivain portugaise d'origine allemande no BlogSkidz, blogue de intercâmbio cultural entre escolas França-Portugal com alunos do Lycée Charles DeGaulle;

  • Trabalho transdisciplinar dos currículos de Língua Portuguesa | História | EVT






Em 2013, a Biblioteca de Esposende comemorou o Centenário da escritora (1913-2013), iniciativa que visou recordar a conceituada escritora, de origem alemã, que manteve forte ligação a Esposende, recordando assim a sua obra.

Também nesse ano, Ilse Losa foi celebrada com um selo integrado na Colecção Vultos da História e Cultura.





Selo comemorativo Ilse Losa
CTT Portugal, 2013


Excerto: 

"Ser judia

O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios. O sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam-lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão. Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos. De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrizinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder «Israelita» à pergunta do sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: «Quando o sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia». Eu não concordava, porque achava «israelita» uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi «negociante de cavalos». Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de «sou israelita», que o meu pai era «comerciante».
(...)

No primeiro dia de aulas tivemos de dizer o nosso nome e profissão do pai e a religião. Conforme recomendação da minha mãe eu disse:

- O meu pai é comerciante. Sou israelita.

Na escola primaria tudo fora natural. No liceu colegas viraram-se e olharam-me. Mais duas judias faziam parte da turma e uma delas, Hanna Berg, respondeu à pergunta com voz firme: «Sou judia». Os gestos de Hanna eram extraordinariamente vivos e comunicativos, enquanto nos seus olhos havia a expressão dessa melancolia penetrante das seculares lendas de sabedorias e flagelos."

Ilse Losa, O Mundo em que vivi (excertos)






Comentário:

Os alunos empenharam-se com entusiasmo nas actividades propostas e sentiram-se muito ligados ao tema da perseguição de crianças e adolescentes em regimes de guerra.

Sabiam alguns alunos que a escritora vivera bem perto da escola que frequentavam. Esse facto também despertou o interesse. Uma jovem judia pudera fugir da perseguição e viera viver para o Porto.

"Escrevo para todos e espero que todos me leiam”

Ilse Losa



Março 2006
G-Souto

17.11.2012
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actualizado em Dezembro 2016


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2 comments:

Anonymous said...


Gostei muito de ler este seu post sobre a escritora Ilse Losa, admiro as várias actividades desenvolvidas no currículo de Português. Algumas delas, vou usar quando der " O Mundo em que vivi".

Um blogue cheio de boas experiências pedagógicas. Muito obrigada pela partilha.

Abraço,
Maria Eduarda

Gina Souto said...

Maria Eduarda,

Lamento só hoje agradecer seu amável comentário.

É que nem sempre passo por este meu blogue. Só em tempos de pausa, quando tenho disponibilidade para publicar mais alguma actividade desenvolvida em sala de aula com meus alunos.

Fico muito feliz em saber que podem ser usadas por outros professores. Foi com esse o objectivo que criei este espaço.
Partilhar experiências pedagógicas que resultaram numa melhor aprendizagem, e os alunos desenvolveram as capacidades requeridas pelos currículos de Linguas, mas com a introdução de ICT, dando, ao mesmo tempo. lugar à criatividade.

Muito obrigada pela sua presença. Volte sempre!

Abraço,